terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Livro: O Buda no sótão

Título: O Buda no sótão
Título original: The Buddha in the attic
Autora: Julie Otsuka
Tradutora: Lilian Jenkino
Editora: Grua

No começo ficávamos constantemente pensando neles. Por que montavam os cavalos do lado esquerdo e não do direito? Como eles conseguiam diferenciar um dos outros? Por que é que estavam sempre gritando? Por que motivo penduravam pratos nas paredes em vez de quadros? E aquelas fechaduras em todas as portas? E os sapatos dentro de casa? Sobre o que conversavam tarde da noite antes de pegar no sono? Com o que eles sonhavam? Para quem rezavam? Quantos deuses será que eles tinham? Era verdade que enxergavam a figura de um homem na lua, e não a de um coelho? E que comiam carne de vaca nos funerais? E que bebiam o leite das vacas? E aquele cheiro? O que seria? "Fedor de manteiga", explicaram nossos maridos. (p. 31)

O Buda no sótão usa a primeira pessoa do plural para narrar a experiência das diversas mulheres japonesas que imigraram para os Estados Unidos na década de 1910. Com casamentos arranjados por casamenteiras e falsas promessas dos futuros maridos, elas atravessam o oceano, deixando a vida que conheciam para trás, para se deparar com a dureza de viver em um novo país. O livro acompanha essas mulheres em seus novos relacionamentos com os maridos que não conheciam, no trabalho árduo e interminável, no contato com os brancos, no nascimento dos filhos, até a deportação da comunidade japonesa para os campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

O livro não tem ação quase nenhuma, não se apega a personagens individuais e segue uma estrutura repetitiva para retratar a vida dessas mulheres, o que poderia torná-lo entediante e sem graça, mas a escrita poética da autora dá vida a essas vozes de uma maneira muito bonita e envolvente.

O foco narrativo pouco convencional foi um dos aspectos que fez com que eu me interessasse pela obra inicialmente. É interessante acompanhar uma narrativa pela voz de um grupo e não de indivíduos e, apesar de às vezes eu sentir certa dificuldade em me acostumar com essa voz, achei que a autora soube transmitir bem essa ideia de um coletivo formado por uma miríade de indivíduos e experiências.

Esse foi meu primeiro contato com a obra da Julie Otsuka e fiquei bastante admirada com o talento dela. Já comprei meu exemplar de Quando o imperador era divino, seu romance de estreia, também sobre os nipoamericanos, que parece se aprofundar mais na situação durante a Segunda Guerra.

Por O Buda no Sótão a autora recebeu o prêmio PEN/Faulkner de 2012, que premia o melhor livro norte-americano de ficção do ano.

6 comentários:

  1. Oi Ligia
    Sou doida para ler este livro, mas ainda não tenho.
    Adorei seu post
    Bjks mil

    www.blogdaclauo.com

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    1. Vale a pena ler, ele tem um estilo muito interessante.
      Obrigada pelo comentário :)

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  2. Tenho curiosidade de ler os romances da Julie Otsuka, mas nunca compro os livros. Depois da sua resenha, que ficou ótima, vou providenciá-los o mais rápido possível. Bjs, Lígia!

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